Polícia Federal pediu afastamento do governador do Maranhão em inquérito sobre desvio de recursos

A defesa do governador disse que não se manifestaria porque "não teve acesso aos supostos relatórios e elementos de informação mencionados, que seguem em segredo de Justiça"

Folhapress
24/09/2026


Numa investigação sobre um suposto esquema de desvio de recursos públicos no Maranhão, a Polícia Federal (PF) solicitou duas vezes à Justiça, sem sucesso, o afastamento do atual governador Carlos Brandão (MDB), além de busca e apreensão contra o político, dois irmãos dele e sua filha.

Originada de um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) sobre operações financeiras atípicas - principalmente na cidade de Colinas (MA), reduto dos Brandão - , a investigação, aberta em 2024, foi solicitada à PF pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e autorizada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). Isso porque constam entre os investigados o governador Brandão e seu sobrinho Daniel Brandão, então presidente do TCE/MA - agora afastado por uma decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF).

De acordo com a PF, que atuou em conjunto com a Controladoria-Geral da República (CGU), empresas do grupo de Brandão foram abastecidas com recursos públicos desviados da Prefeitura de Colinas e do governo do Maranhão. O suposto esquema, segundo a investigação, ocorreria mediante crimes tributários, lavagem de dinheiro, licitações dirigidas, corrupção passiva e organização criminosa.

A defesa do governador disse que não se manifestaria porque "não teve acesso aos supostos relatórios e elementos de informação mencionados, que seguem em segredo de Justiça". Também diz rechaçar qualquer tentativa de atribuir a ele a prática de crimes.

Segundo os elementos reunidos por Coaf, PF e CGU, empresas do grupo Brandão com contratos com órgãos públicos apresentaram movimentação financeira incompatível com o faturamento declarado. Também movimentaram recursos de terceiros e de pessoas físicas sem correspondente capacidade financeira.

De acordo com a investigação, as empresas envolvidas no suposto esquema firmaram, entre 2015 e 2024, com a Prefeitura de Colinas e o governo do Maranhão, 237 contratos, que somaram cerca de R$ 100 milhões. A CGU identificou "fortes indícios" de licitações montadas para direcionar contratos para as empresas do grupo.

São mencionadas no inquérito as empresas Coagri, Gás do Sertão, Disvali, Vigas Engenharia e Empreendimentos do Maranhão (EMA). Segundo a PF, a Vigas e a EMA estariam registradas em nome de laranjas, mas pertenceriam de fato ao grupo Brandão, como intermediárias de repasses de contratos com órgãos públicos para empresas oficiais do grupo e pagadoras de despesas pessoais de integrantes do clã.

De 2017 a julho de 2023, conforme a PF, a Vigas recebeu da prefeitura e do governo estadual R$ 77,5 milhões, dos quais R$ 36,7 milhões foram repassados a outras empresas do grupo.

Procurado, Marcus Brandão, irmão do governador e sócio da Coagri, da Gás do Sertão e da Disvali, não respondeu. A reportagem não conseguiu localizar representantes das empresas Vigas e EMA.

Como mostrou o portal Metrópoles, o governo estadual usou R$ 13,2 milhões de precatórios do Fundo de Desenvolvimento do Ensino Fundamental (Fundef) para pagar a Vigas. O governo argumenta que usou na verdade juros de mora dos precatórios, e que esse dinheiro pode ser empregado em obras de infraestrutura.

A PF depois deflagrou a Operação Monte Sinai, para apurar desvio de emendas e de recursos da educação no Maranhão - à qual está relacionada a investigação sobre as empresas do clã Brandão.

Quanto à Coagri, a investigação sustenta que a empresa foi "amplamente utilizada para garantir o proveito econômico dos ilícitos perpetrados, tanto ao receber recursos de empresas vencedoras de licitações fraudadas, quanto ao repassar valores em espécie a 'laranjas' ou deles recebê-los, em contexto de operações financeiras típicas de lavagem de dinheiro".

Conforme a PF, a receita bruta declarada pela Coagri saltou de R$ 363,4 mil em 2019 para R$ 26,2 milhões em 2023, "além de estar muito aquém da movimentação financeira efetiva, corroborando as evidências de crimes contra a ordem tributária e de lavagem de capitais".

Em representação enviada ao STJ e ao Ministério Público Federal (MPF), a PF apontou que, nos últimos anos, os investigados vêm "substituindo a participação direta nos quadros societários dessas empresas pela participação através de holdings, o que tem o condão de dificultar a identificação das condutas e o rastreamento dos recursos obtidos ilicitamente".

No primeiro pedido ao STJ, a PF solicitou mandados de busca e apreensão contra Marcus Brandão (empresário e um dos líderes do grupo) e José Henrique Brandão (ex-prefeito de Colinas), mas não teve resposta.

Em maio de 2025, em complemento à representação inicial do ano anterior, a PF pediu a expedição de mandados de busca e apreensão contra Carlos Brandão e a filha dele Lethicia e o sequestro de bens de ambos e de holdings supostamente criadas para dissimular a expansão patrimonial de integrantes do grupo. Igualmente sem resposta.

Com o avançar do processo, em julho de 2025 a PF pede o afastamento do governador até o término da investigação, "como única forma de interromper as práticas ilícitas" descritas, além de busca e apreensão nas secretarias de Infraestrutura e Administração do estado.

A PGR dá parecer favorável às buscas e afirma que aguardará o resultado para se manifestar sobre o afastamento do governador, mas a autorização do STJ não vem.

Em 2026, já com os inquéritos tramitando no STF, a PF reforça os pleitos, tendo sido atendida apenas parcialmente pelo ministro Flávio Dino, que não se manifestou ainda sobre o pedido de afastamento de Brandão nem sobre as buscas contra integrantes do grupo. A PGR emite novo parecer, defendendo que os inquéritos retornem ao STJ.

Carlos Brandão questiona o foro dos inquéritos e solicita ao STF que sejam transferidos para o STJ. Em nota, o governador diz que tenta há mais de um ano acesso aos elementos das investigações, sem êxito.

"A defesa rechaça qualquer tentativa de atribuir ao governador Carlos Brandão a prática de crimes ou de associá-lo, sem demonstração individualizada de sua conduta, às imputações questionadas."

Afirma ainda que o governador "permanece à disposição das instituições competentes e confia que qualquer apuração seja realizada com respeito à Constituição, ao devido processo legal, ao contraditório, à ampla defesa e às garantias inerentes ao Estado de Direito".
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