Ruptura com Portugal foi resultado de anos de mudanças políticas, econômicas e sociais e não encerrou os conflitos no país
O Imparcial
07/09/2026
Todos os anos, o 7 de Setembro é celebrado com desfiles e cerimônias cívicas, tendo como principal símbolo o chamado "grito do Ipiranga". No entanto, historiadores destacam que a Independência do Brasil foi resultado de um processo longo e complexo, marcado por disputas políticas, interesses econômicos, conflitos regionais e transformações iniciadas anos antes de 1822.
No início do século XIX, ainda não existia uma identidade brasileira unificada. As diferentes regiões do território tinham relações limitadas entre si, e muitos habitantes se identificavam mais com suas províncias de origem do que com uma ideia de Brasil como nação.
A chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro, em 1808, foi decisiva para essa transformação. Após a invasão de Portugal pelas tropas de Napoleão Bonaparte, a Corte se instalou no Brasil, que passou por mudanças como a abertura dos portos e a criação de instituições administrativas, culturais e científicas. Em 1815, o território foi elevado à condição de Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.
Caminho até a Independência
A tensão política aumentou nos anos seguintes. A Revolução Pernambucana, em 1817, demonstrou a existência de movimentos contrários ao domínio português. Em 1820, a Revolução do Porto pressionou pelo retorno da Corte a Portugal e pela reorganização política do Império.
D. João VI voltou a Portugal em 1821 e deixou seu filho, Pedro de Alcântara, como príncipe regente. As Cortes portuguesas passaram a exigir também o retorno de Pedro, que decidiu permanecer no Brasil em 9 de janeiro de 1822, episódio conhecido como Dia do Fico.
Nos meses seguintes, o processo de separação avançou com a convocação de uma Assembleia Constituinte e a publicação de um manifesto às nações estrangeiras. O cenário internacional também influenciou o período, com as independências dos Estados Unidos, do Haiti e de diversos territórios da América espanhola colocando em circulação ideias de autonomia e soberania.
O episódio do Ipiranga
Em 7 de setembro de 1822, durante uma viagem entre Santos e São Paulo, Dom Pedro recebeu correspondências relacionadas à crise com Portugal. As Cortes exigiam seu retorno e ameaçavam aliados importantes, enquanto Maria Leopoldina e José Bonifácio defendiam uma reação às pressões portuguesas.
Às margens do riacho do Ipiranga, Dom Pedro proclamou a separação política do Brasil. A famosa frase "Independência ou Morte!", porém, não possui confirmação histórica definitiva.
A imagem mais conhecida do episódio também foi construída posteriormente. O quadro Independência ou Morte!, de Pedro Américo, foi concluído em 1888, décadas depois do acontecimento, e apresenta uma representação idealizada da cena. Até mesmo o uso de cavalos na viagem é questionado por historiadores, já que mulas eram mais adequadas às condições do trajeto pela Serra do Mar.
O anúncio feito por Dom Pedro não encerrou imediatamente os conflitos. Entre 1822 e 1824, ocorreram confrontos em regiões como Bahia, Maranhão, Pará e Piauí. Portugal reconheceu oficialmente a independência brasileira apenas em 1825, por meio do Tratado de Paz e Aliança.
Após a ruptura, o Brasil passou a organizar suas próprias instituições. A Constituição de 1824 estabeleceu uma monarquia, com Dom Pedro como primeiro imperador, mas manteve uma sociedade profundamente desigual. A participação política era restrita, as mulheres não tinham direito ao voto e a escravidão permaneceu até 1888.
Por isso, especialistas apontam que a Independência deve ser compreendida não apenas como o acontecimento de 7 de setembro, mas como um processo de construção do Estado brasileiro e da própria ideia de nação. A data simboliza a ruptura com Portugal, mas muitas estruturas do período colonial permaneceram por décadas.
