Pressionado nas pesquisas e pelo Congresso, Lula tenta reação com resgate de discurso antissistema

Historicamente mais associado à esquerda, o lema de enfrentamento a supostas estruturas estabelecidas foi, na avaliação de pesquisadores, capturado pela direita global nos últimos anos

O Globo
02/05/2026


Pressionado por um momento crítico que une sucessivas derrotas impactantes no Congresso à estagnação nas pesquisas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decidiu apostar no discurso antissistema por uma reação rumo à busca pela reeleição. O movimento já vinha sendo sinalizado por outras lideranças petistas, como o presidente da sigla, Edinho Silva, e a ex-ministra e deputada federal Gleisi Hoffmann. Na última quinta-feira, porém, o próprio titular do Planalto recorreu, pela primeira vez, ao uso literal da expressão durante pronunciamento em cadeia nacional de rádio e televisão.

Um dia depois de ver um indicado ao Supremo Tribunal Federal (STF) voltar a ser rejeitado pelo Senado passado mais de um século, e horas após parlamentares derrubarem seu veto para abrir caminho a uma redução de pena do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), Lula não citou diretamente nenhum dos reveses ao aproveitar a véspera do 1° de Maio para se dirigir à população. Em uma mensagem repleta de acenos eleitorais, em especial o lançamento de um novo programa de renegociação de dívidas, o petista reclamou que "o sistema joga contra".

"Os obstáculos que temos pela frente são enormes. Cada vez que damos um passo adiante para melhorar a vida do povo brasileiro, o sistema joga contra. O andar de cima, os bilionários, a elite que só pensa em manter privilégios às custas do povo. Se dependesse do sistema, nem a escravidão teria sido abolida no Brasil", discorreu o presidente.

Historicamente mais associado à esquerda, o lema de enfrentamento a supostas estruturas estabelecidas foi, na avaliação de pesquisadores, capturado pela direita global nos últimos anos, a partir de nomes como Donald Trump, nos Estados Unidos, e o próprio Bolsonaro, entre outros. No último fim de semana, durante Congresso do PT, o presidente da sigla, Edinho Silva, defendeu que a militância precisava retomar a pauta para si.

"Como pode estarmos em um ambiente de antissistema e o PT ficar recuado, acuado politicamente, e não ir falar que, se tem antissistema, a resposta está na esquerda, e não na direita e no fascismo? A resposta ao antissistema está conosco."

'Governar para o povo'

Em janeiro, Gleisi Hoffmann já havia ensaiado tom similar. Em postagem na qual resgatava frases de Lula ao longo da trajetória política, afirmou: “Ser antissistema é governar para o povo”. Para engrossar o discurso, a estratégia é tentar ressaltar iniciativas do governo que são vistas como ativos importantes junto à população menos favorecida.

Nesta seara, encaixa-se, por exemplo, a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. A medida era uma das principais apostas para a campanha de Lula à reeleição, mas, por ora, demonstra pouco impacto eleitoral, conforme atestam pesquisas. A principal pauta no quesito "antissistema", porém, é o fim da escala 6x1, que o governo busca viabilizar junto ao Congresso.

"Temos que mostrar à sociedade que nós somos o antissistema. E a gente só demonstra isso com questões bem práticas que o povo entende — pontuou Edinho em vídeo postado nas redes recentemente, no qual mencionava especificamente a mudança na jornada de trabalho."

Para avançar com o fim da 6x1, entretanto, o governo depende dos parlamentares, que desferiram dois duros golpes no Planalto em menos de 24 horas. Se no Senado a relação deteriorada com o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP) - um dos principais fiadores das derrotas esta semana -, torna o cenário ainda mais desfavorável, aliados de Lula apostam em Hugo Motta (Republicanos-PB), que comanda a Câmara, para tentar viabilizar o trunfo.

Caso isso não aconteça, porém, a resposta pode vir, mais uma vez, sob o verniz de discurso antissistêmico. Após os reveses sobre a indicação ao Supremo e a retomada do PL da Dosimetria, governistas passaram a resgatar a expressão "Congresso inimigo do povo", muito utilizada justamente no contexto dos debates sobre a escala 6x1. Ontem, durante ato de 1° de Maio, petistas já trataram o assunto como prioritário, com cobranças ao Parlamento.

Ao panorama adverso no Congresso, somam-se as pesquisas recentes. Em abril, a Genial/Quaest mostrou que 52% da população desaprovam o terceiro mandato de Lula, contra aprovação de 43%. O mesmo instituto trouxe o petista numericamente atrás de Flávio Bolsonaro (PL) em um eventual segundo turno (42% a 40%).

'Parece um tabu'

Líder do PT na Câmara, o deputado Pedro Uczai (SC) apresentou em março um projeto de lei que propõe a criação de um controle externo ao Banco Central por meio da retomada da vinculação entre a instituição e o Ministério da Fazenda. A ideia contrasta com a proposta de emenda constitucional (PEC) que confere maior autonomia financeira, orçamentária e administrativa à autoridade monetária, que voltou a ser defendida pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo, que tem sido alvo de críticas de petistas.

"É preciso enfrentar essa normalidade, que mais parece um tabu, da autonomia do Banco Central. Isso é ser antissistema: enfrentar essa concepção de um ente de fora do controle de qualquer mecanismo da democracia", opina o deputado, engrossando o coro.

Para Letícia Capone, diretora de pesquisa do Instituto Democracia em Xeque, a tática faz parte de uma tentativa de retomada dos governistas e do presidente da herança de defesa dos trabalhadores e contrária ao status quo. Ela lembra que esse viés era marcante no período em que o partido foi fundado e no qual Lula exercia a função de líder sindical metalúrgico no ABC paulista.

"A gente nota que existe essa tentativa de retomar o diálogo e o caminho ao lado do que antes o PT entendia como povo, ou seja, os proletários. A partir disso, uma série de dinâmicas do partido tem mudado tanto na comunicação pelas redes sociais quanto na implementação de políticas mais diretas", avalia Capone.

A intenção, contudo, coincide com a aposta de nomes da direita. Romeu Zema (Novo), por exemplo, vem investindo no embate aberto com o Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar alavancar a própria postulação ao Planalto.

Candidatos de menor expressão, como Renan Santos, do Missão - que reúne oriundos do Movimento Brasil Livre (MBL) -, também adotam tom similar ao se posicionar como outsiders do meio político. Com este intuito, ele ataca tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro, descrito como expoente de "uma direita pró-corrupção", que se diferenciaria de uma versão da direita "com vergonha na cara".

O discurso antissistema, entretanto, ainda tem no bolsonarismo seu principal expoente. Sociólogo e professor da ESPM, Paulo Niccoli Ramirez explica que, no passado recente, esse tipo de posicionamento passou a estar relacionado à ideia de "ruptura institucional", abertamente defendida pelo ex-presidente, condenado no STF por participação numa trama golpista na reta final de seu mandato.

"O ex-presidente Bolsonaro sempre se anunciou como "antissistema", desde quando era candidato, quando dizia que, se não ele vencesse, seria uma fraude eleitoral. Depois, ele dizia que bastava colocar meia dúzia de soldados na frente do Supremo que estaria tudo resolvido", diz Ramirez.
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